Embrapa Clima Temperado
Sistemas de Produção, 17
ISSN 1806-9207 Versão Eletrônica
Dez./2011
Cultivo de arroz irrigado orgânico no Rio Grande do Sul
Autores

Sumário

Apresentação
Importância Econômica
Implantação da lavoura no sistema pré-germinado
Adubação e correção
Cultivares, população de plantas e época de semeadura
Manejo da Água de Irrigação
Manejo de plantas daninhas
Manejo de Insetos e Outros Fitófagos
Manejo de doenças
Meio Ambiente
Colheita
Pós-Colheita e Industrialização de Arroz
Econômia e mercado
Certificação de arroz orgânico

Expediente

CAPÍTULO 12 - Economia e Mercado

Introdução

A evolução da ciência médica, traduzida na descoberta de soluções para várias doenças, que causavam, no passado, a morte prematura de pessoas e limitavam a sua existência a pouco mais de 50 anos, tem mudado radicalmente, fazendo a humanidade viver mais e com qualidade de vida.

Nesse sentido, novos hábitos associados a uma alimentação mais saudável têm sido buscados por um contingente cada vez maior de pessoas de países desenvolvidos com reflexos em todos os cantos do mundo, onde se concentram segmentos sociais atentos às novas descobertas em benefício da saúde humana.

A principal fonte natural de alimentação, oriunda da agricultura, ao longo dos anos, vem se valendo de técnicas agronômicas que recomendam a introdução de agroquímicos para o aumento da produtividade e, por conseguinte, a expansão na oferta desses alimentos, para atender a demanda crescente de uma população mundial com crescimento vegetativo.

Entretanto, esse sistema de produção tem sido contestado em função do uso indiscriminado ou do mau uso desses agroquímicos, detectado nos alimentos na forma de resíduos, que podem causar danos à saúde humana. No meio produtivo, está ocorrendo o retorno ao sistema de produção agrícola com o uso racional ou mesmo isento de químicos, em função das novas exigências de um contingente cada vez maior de consumidores ou pela consciência dos malefícios dos químicos para a saúde do produtor e do meio ambiente.

Como no contexto atual, quem define a questão do que produzir é o consumidor, e este está cada vez mais exigente em termos de origem, qualidade, regularidade de oferta e preço, é natural que alguns produtores obedeçam a tais exigências e busquem atender aos seus anseios, apesar de estes representarem apenas um nicho de mercado em desenvolvimento.

Neste capítulo, aborda-se a análise econômica e mercado para a produção orgânica de arroz irrigado, fundamentando-se no disposto na IN nº 64 do MAPA, Art. 5° que salienta que quanto aos aspectos sociais, os sistemas orgânicos de produção devem buscar: (1) relações de trabalho fundamentadas nos direitos sociais determinados pela Constituição Federal; (2) a melhoria da qualidade de vida dos agentes envolvidos em toda a rede de produção orgânica. Destacam-se, em especial, os resultados da análise econômica da área de validação do projeto “Alternativas Tecnológicas para Produção Orgânica de Arroz Irrigado no Sistema de Cultivo Convencional, no Rio Grande do Sul” (MATTOS et al., 2004), instalada numa propriedade de base familiar, localizada no município de Camaquã, RS,  na safra agrícola de 2001/2002 (MATTOS et al., 2004).

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Análise econômica

Uma das principais características da propriedade estudada, designada no estudo de “área de validação”, foi o predomínio da mão-de-obra familiar. A mecanização restringia-se apenas a um trator de 63 cv, ano 1981 e uma colheitadeira utilizada predominantemente na propriedade, operada pelo chefe da família e dois filhos que compõem a principal força de trabalho.

A assistência técnica era fornecida pela Associação dos Usuários da Irrigação do Duro (AUD), que congrega produtores que utilizam a água disponível do Arroio Duro para a irrigação das suas lavouras. A retribuição por estes serviços custava ao associado oito sacos de arroz por hectare explorado, para aqueles que utilizam água por queda natural e sete sacos por hectare para os que a recebem por meio de bombeamento elétrico.

A produção de arroz irrigado era a principal atividade da propriedade, da qual a família tinha assegurada a fonte de renda para o sustento, há mais de 30 anos.  A produção média girava ao redor de 100 sacos de 50 kg de arroz seco por hectare, sendo que toda a produção foi encaminhada para a Companhia Estadual de Silos e Armazéns (CESA), para a secagem e armazenamento, até que se concretizasse a negociação.  Para a execução destes serviços foi cobrado 6% para a secagem e 0,5% para o armazenamento de lotes de 100 sacos por até 30 dias.

Para o acompanhamento econômico utilizou-se dos registros quantitativos das operações que compunham o sistema de produção do arroz orgânico e o sistema de produção tradicional, praticadas pelo produtor em área separada, com o objetivo de comparar os resultados da produção, custos e receitas. O método utilizado para a sistematização das informações foi o da orçamentação.

Os resultados, em relação ao custo de produção, apontaram o sistema tradicional com custo superior ao sistema orgânico, ou seja, R$ 1.007,81 para o primeiro e R$ 694,82 para o segundo. Essa diferença foi atribuída a inclusão das operações com agro químicos que, no sistema orgânico não foi utilizado. Também, no aspecto receita o sistema tradicional superou o orgânico; R$ 942,19 para o primeiro e R$ 427,18 para o segundo. A superioridade da receita do sistema tradicional pode ser explicada pela diferença em termos de produtividade que, no sistema convencional alcançou 6.500 kg/ha e no sistema orgânico, tão somente 3.740 kg/ha.

Desta forma, mesmo com custo de produção inferior 32% ao sistema convencional, o sistema orgânico obteve rentabilidade menor, em função, basicamente, da produtividade, visto que o preço recebido pelo produtor não variou em função da origem do sistema produtivo.

Caso o preço do arroz orgânico mantivesse valor diferenciado no mercado como, aliás ocorreu na safra agrícola de 2002/2003, ocasião que foi 48% superior atingindo R$ 67,00 a saca de 50 kg, para o grão japônico (Cultivar BRS Bojuru), a diferença em termos de rentabilidade, entre os dois sistemas, seria de apenas 10% em favor do sistema tradicional (MATTOS et al., 2004).

Como a produtividade média de arroz orgânico tem se mantido, usualmente, menor do que a de outros sistemas de produção tradicionais, o diferencial estaria num preço diferenciado (maior) pago aos produtores por compradores especializados. Com possibilidades de valorização da produção, redução de custos pela menor utilização de insumos químicos, mercado seguro com perspectivas de crescimento, além da consciência da garantia da segurança alimentar e ambiental os produtores, seriam fortes razões para adesão dos produtores ao sistema de produção orgânica de arroz (MATTOS et al., 2004).

Nessa primeira avaliação do estudo, em que não houve diferenciação de preço do produto comercializado entre os sistemas, seria necessário que a produção orgânica alcançasse produtividade superior a registrada em 74%.

A comparação de alguns índices econômicos dos sistemas de produção orgânico e tradicional de arroz irrigado, em área de validação, em propriedade rural, em Camaquã, RS, consta na Tabela 1.

Tabela 1. Economicidade de um sistema de produção orgânica de arroz irrigado comparado à de um sistema de produção tradicional. Pelotas, 2009.

1Maior produtividade obtida em área de validação, em propriedade rural (Camaquã, RS), por meio de sistemas de produção orgânica e tradicional
2Rentabilidade sem (A) e com agregação de valor do arroz orgânico (B), sendo o preço da saca de 50 kg igual a R$ 43,00 e R$ 67,00, respectivamente

Portanto, os resultados econômicos do projeto apontam a viabilidade da produção de arroz irrigado orgânico, no sistema atual, desde que comercializados em nichos de mercado com remuneração diferenciada. A partir da evolução das técnicas de produção que possibilitem promover acréscimo na produtividade, será possível, até mesmo concorrer no mercado com o produto produzido no sistema tradicional.

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Mercado

No Brasil o crescimento anual do mercado de orgânico está em torno de 30-50%. Entretanto, mais da metade da produção brasileira de alimentos orgânicos tem como destino o exterior, principalmente Japão, Estados Unidos e União Européia, onde os consumidores têm poder aquisitivo para pagar mais por gêneros alimentícios de qualidade internacional certificados. (SALOMÃO, 2006).

Cerca de 150 empresas brasileiras exportam, sendo que apenas dez são consideradas grandes.  Essas empresas que vendem para os exigentes mercados externos tem conseguido preços 50% superiores ao do sistema tradicional (SALOMÃO, 2006).

Para um produto ser considerado orgânico deve ser certificado por uma instituição certificadora, que é uma entidade reconhecida oficialmente para desempenhar tal função. Esse fato, por si só, já implica custos adicionais no processo produtivo. Esta é uma primeira explicação para o fato de os preços desses produtos serem, geralmente, mais elevados que os tradicionais. Mas, não é apenas o investimento em certificação que os torna mais caros. Em geral, a produção orgânica, é um sistema de cultivo em menor escala e requer cuidados especiais e uso intenso de mão-de-obra. Além do mais, a não utilização de alguns insumos comuns na produção convencional pode, implicar em menor produtividade, mesmo que venha esta constatação nem sempre ocorra (GAMEIRO, 2006).

No aspecto processamento industrial, a quantidade de empresas agroindustriais brasileiras voltadas para o produto orgânico é relativamente pequena, 1,8 para cada 100, enquanto na França é de 7%, no Reino Unido de 21% e na Holanda de 36%. O maior produtor mundial de açúcar orgânico é brasileiro, localizado em São Paulo, cuja maior parte da produção é direcionada para o mercado internacional, colocando o restante no mercado interno (FONSECA, 2006).

Com o aumento da demanda interna, os produtores, por certo, expandirão seus negócios e novos competidores podem entrar no jogo com melhores preços ou produtos diferenciados. Anualmente, a venda de produtos orgânicos cresce em torno de 20% no mundo. (SALOMÃO, 2006).

No mercado interno, os pontos de comercialização englobam beneficiadores/distribuidores, lojas e restaurantes naturais, hotéis, feiras (específicas ou não), grande e pequenos varejistas, centrais atacadistas, hospitais, além da entrega de cestas domiciliares, uma característica marcante da comercialização de alimentos orgânicos (FONSECA, 2006).

Apesar da extensão geográfica e clima favorável para a produção agrícola, no Brasil ainda é preciso quebrar uma série de barreiras para que se torne um dos principais produtores e fornecedores mundiais de alimentos orgânicos. Algumas das constatações são: (1) irregularidade de abastecimento; (2) complicações logísticas; (3) ausência de marketing institucional e, (4) não percepção do “valor”, apontados como as principais limitações pelos supermercadistas para a expansão do referido mercado. Por outro lado, tipos de consumidores indicam que a qualidade percebida num produto orgânico está associada diretamente a saúde. Estes produtos também são demandados pela garantia de origem (certificação), pelo preço (pagam de 10-20% a mais). Os locais preferidos para a aquisição dos produtos orgânicos são os supermercados (45%), feiras (26%) e lojas de conveniências (16%) (SILVA, 2007).

No caso do arroz, preferências especiais de consumo definem a tendência da produção orgânica. Desta forma, arroz orgânico aromático, japônico, integral, preto, vermelho, entre outros tipos teriam mais aceitação que um arroz orgânico do tipo grão tradicionalmente comercializado.

Atualmente há, no mínimo, cinco marcas de arroz orgânico no mercado brasileiro, com 12 produtos diferenciados (variando embalagem, grupo, subgrupo, classe e tipo). Eles podem ser encontrados nas prateleiras dos grandes supermercados, onde ocupam razoável espaço (GAMEIRO, 2006).

No segmento dos produtos orgânicos, especificamente no referente ao arroz, aspectos culturais associados à maior segurança alimentar podem definir nichos de mercado. No Brasil, estes nichos estão concentrados, nos estados de Santa Catarina, Paraná, Rio de Janeiro e São Paulo, principalmente, onde predominam colônias de descendentes asiáticos (GAMEIRO, 2006).

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Referências

FONSECA, M. F. Posição do Brasil no mercado de alimentos orgânicos. Rio de Janeiro: Planeta Orgânico, 2006. Disponível em: <http://www.planetaorganico.com.br/relat01-4.htm>. Acesso em: 8 mar. 2010.

GAMEIRO, A. H. Orgânicos refletem evolução do arroz no varejo. Pirassununga: Projeto Arroz Brasileiro, 2006. Disponível em: <http://www.arroz.agr.br/site/arrozemfoco/060714.php>. Acesso em: 8 mar. 2010.

MATTOS, M. L. T.; MARTINS, J. F. da S.; FRANCO, D. F.; MADAIL, J. C. M.; VENDRUSCULO, J. L. S.; SCIVITTARO, W. B. Nicho de mercado. Cultivar: grandes culturas, Pelotas, v. 60, p. 36-38, abr. 2004.

SALOMÃO, C. C. Mercado de orgânicos no Brasil e exterior. arScientia, ano 1, 28 set. 2006. Disponível em: <http://www.arscientia.com.br/materia/ver_materia.php?id_materia=268>. Acesso em: 8 mar. 2010.

SILVA, B. A. da. Mercado de produtos agroecológicos no município de Pelotas, RS. 2007. 72 f. Monografia (Graduação em Ciência Econômicas) – Universidade Católica de Pelotas, Pelotas, 2007.

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Literatura recomendada

BRASIL. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Legislação. Disponível em: <http://extranet.agricultura.gov.br/sislegis/action/detalhaAto.do?method=consultarLegislacaoFederal>. Acesso em: 27 nov. 2009.

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