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Introdução
A implantação de uma lavoura de arroz pré-germinado compreende um conjunto de técnicas de cultivo, nas quais basicamente as sementes previamente germinadas são lançadas em quadros nivelados e préviamente inundados. Assim sendo, tanto quanto a semente pré-germinada, a sistematização da área é um importante requisito para caracterizar o sistema.
Em Santa Catarina, como também no Rio Grande do Sul, optou-se por adotar um sistema de quadros fixos, regulares e em geral de pequenas dimensões, separados por taipas fixas. Sabe-se, entretanto, que é perfeitamente viável utilizar as áreas entre taipas em curvas de nível, para o cultivo de arroz pré-germinado, diminuindo os custos de investimento inicial.
Neste capítulo, abordam-se a implantação da lavoura no sistema pré-germinado para a produção orgânica de arroz irrigado, fundamentando-se no disposto na IN n0 64 do MAPA, Artigo 7, que salienta que todas as unidades de produção orgânica devem dispor de Plano de Manejo Orgânico atualizado e, § 1° que para o período de conversão, deverá ser elaborado um plano de manejo orgânico específico contemplando os regulamentos técnicos e todos os aspectos relevantes do processo de produção, como: histórico de utilização da área; manutenção ou incremento da biodiversidade; manejo dos resíduos; conservação do solo e da água, entre outros.

Sistematização da área
Os solos de várzeas ocorrem, normalmente, em relevo plano a suavemente ondulado, apresentando desuniformidade ou microrrelevos na superfície que dificultam o manejo adequado de práticas culturais no arroz irrigado e em outras culturas de sequeiro. A correção dessas imperfeições é benéfica, independentemente do sistema de cultivo a ser adotado, sendo a sistematização da área, a principal técnica utilizada para este fim.
A sistematização dos solos de várzea é um processo de adequação da superfície do terreno de forma a transformá-lo em um plano ou numa curva, que, entre outras vantagens, permite um melhor manejo da água, tanto na irrigação como na drenagem.
A sistematização do terreno, em sentido amplo, consiste em se estabelecer um sistema funcional de manejo, que envolva drenagem, irrigação, remoção de detritos vegetais, locação e construção de estradas internas e canais, entaipamento e regularização da superfície do solo. De forma mais restrita, a sistematização envolve apenas o aplainamento ou nivelamento para correção do microrrelevo, visando eliminar pequenas diferenças no nível do solo, tornando-o plano, mas com a declividade natural do terreno.

Implantação do sistema e sistematização
De modo geral, o aplainamento, embora apresente menor movimentação de solo, menor custo de implantação e melhores condições de drenagem, é menos eficiente no controle da irrigação em relação ao nivelamento, que tem por objetivo adequar a superfície do terreno através da movimentação do solo, podendo este apresentar ou não declividade em função da cultura a ser implantada na área.
Em um projeto de lavoura, é necessário levar em conta os aspectos referentes à drenagem e irrigação da área; a profundidade e fertilidade do solo, para dimensionar os cortes e aterros; o tamanho dos quadros; estradas; a direção dos ventos predominantes e, principalmente, o perfeito nivelamento dos quadros. A sistematização da área, com vistas à implantação do sistema pré-germinado, deve obedecer a algumas características específicas para serem obtidos melhores resultados com o sistema. Ao contrário do sistema convencional, no qual é necessário desmanchar e construir as taipas a cada safra, neste sistema elas são permanentes, com consequente redução de custos da lavoura. No primeiro ano, as taipas ainda não estão consolidadas, principalmente em solos arenosos e, por isso, devem ser construídas de forma a resistir às chamadas maretas oriundas do trabalho das máquinas dentro dos quadros inundados. Nos anos subsequentes, após a sua consolidação, elas podem ser diminuídas na largura, para aproveitar melhor o terreno. É aconselhável, num projeto de sistematização, que o sistema de irrigação e drenagem tenha suas funções separadas, isto é, não é recomendável usar o canal de irrigação como dreno ou o dreno, como canal de irrigação. Isto se justifica pelo simples fato de que, muitas vezes, há necessidade de drenar determinados quadros e, ao mesmo tempo, estar irrigando outros. A irrigação por um canal de duplo propósito (canal de irrigação e drenagem), ou irrigação da área quadro a quadro, acarretará a suspensão da irrigação da lavoura ou parte dela. Consequentemente será perdida, praticamente, a água do canal de irrigação, pelo seu rebaixamento. Portanto, este é um procedimento que deve ser evitado, pois é inadequado tanto técnica como economicamente. Dentro do possível, todos os quadros deverão ser independentes, tendo sua própria irrigação, drenagem e acesso a estradas, evitando-se que o trânsito de máquinas estrague as taipas e a superfície sistematizada dos quadros. Por problemas com ventos, rapidez na irrigação e drenagem, por ocasião do manejo da água, é aconselhável que o tamanho dos quadros, dependendo da topografia do terreno, se situe ao redor de 1,0 ha. Quanto mais acidentado o terreno, menor o tamanho dos quadros. Em terrenos com pouca declividade, os quadros poderão ser maiores, levando sempre em consideração a quantidade de terra a ser movimentada e a profundidade da camada fértil do terreno. De preferência, os canais deverão estar situados junto à lateral mais comprida do quadro. O tamanho dos quadros será determinado por alguns fatores específicos de cada propriedade e de cada região.
Os procedimentos para a sistematização envolvem o levantamento topográfico e mapas, cálculos e métodos de implantação. Antes de iniciar o levantamento topográfico, a primeira atitude a ser feita é a vistoria da área, para familiarizar-se com as condições locais do terreno. Neste trabalho, é importante o acompanhamento do proprietário da lavoura, para que este transmita ao técnico, informações que poderão ser usadas na elaboração do projeto. Nesta vistoria, observa-se a topografia do terreno, sua declividade, o tipo de vegetação, cercas, taipas, e principalmente a infraestrutura da lavoura, tais como canais, drenos, açudes, galpões, sede e sistema viário da propriedade. Após a vistoria, já com uma idéia definida de como fazer o trabalho a campo, realiza-se o levantamento planialtimétrico da área, fazendo a malha de estaqueamento, com espaçamentos que variam conforme a declividade do terreno. Se o terreno tiver uma inclinação acentuada, a malha deverá ser de 20 x 20 metros. Em terrenos com declividade média, de 30 x 30 metros, e em solos mais planos, essa malha poderá ser de 50 em 50 metros Em seguida, executa-se o levantamento altimétrico do terreno, fazendo-se a leitura das estacas com nível ótico, estação total ou GPS. Em seguida, com os dados do levantamento, calculam-se as cotas dos pontos obtidos, elabora-se o mapa, traçam-se as curvas de nível, projetam-se os canais de irrigação e de drenagem, o sistema viário e o tamanho e posição dos quadros, levando-se em consideração que, para reduzir os custos de implantação da sistematização, a infraestrutura existente, dentro do possível, deverá ser aproveitada.
Com os dados calculados e com o projeto acabado, inicia-se, no campo, a marcação do local dos canais, drenos, estradas e as taipas dos quadros. Nesta etapa de implantação do projeto, devem-se marcar as alturas de corte e aterro nas estacas, para orientar os operadores de máquinas. Nos locais onde será necessário realizar cortes no terreno, convenciona-se pintar as estacas, na parte superior, com a cor vermelha, na metragem estipulada no projeto para aquela estaca. Já para os locais onde será necessário aterrar, costuma-se pintar as estacas, na parte inferior, com a cor azul, fixando-se a altura de aterro projetada. Após a marcação, delimitação e execução dos canais, estradas e drenos, realiza-se a construção das taipas e o nivelamento do terreno, processando cortes e aterros. O nivelamento dos quadros poderá ser feito no solo seco ou com água. O nivelamento a seco consiste em trabalhar dentro dos quadros obedecendo às alturas de corte/aterro demarcadas nas estacas. Este nivelamento poderá ser feito com trator com lâmina traseira. Com a lâmina traseira acoplada ao trator, desloca-se a terra da parte mais alta para a parte mais baixa, até nivelar o terreno dentro do quadro. Outra maneira de realizar-se o nivelamento é utilizando os equipamentos a laser, acoplados ao trator (emissor) e plaina ou caçamba (receptor). Para obter sucesso e eficiência em um projeto de sistematização o produtor deverá estabelecer um planejamento com base em critérios técnicos bem definidos:
a) Profundidade de corte – a profundidade máxima depende do tipo de solo. Normalmente no Rio Grande do sul, os solos de várzeas, por serem rasos, com profundidade média em torno de 45 cm, não admitem cortes superiores a 10 cm. No caso de cortes superiores a 10 cm, recomenda-se uma análise química do solo detalhada para possível correção de seus atributos químicos via correção e adubação orgânica.
b) Tamanho dos planos – não existe limite máximo para áreas sob sistematização e o limite mínimo, tem sido estabelecido pelo tamanho que possibilita que as atividades de execução da lavoura sejam realizadas com facilidade. Normalmente, no RS, tem se utilizado 1,0 ha, de forma retangular, como módulo mínimo.
c) Investimento – varia conforme o volume de terra a ser movimentada, o qual depende da topografia e do tamanho do plano. O valor gasto na sistematização não deve ser considerado um custo, pois o procedimento é realizado uma única vez, sofrendo pequenas correções a posterior, principalmente no primeiro ano após sua realização, para acomodação do solo nas partes aterradas. A estimativa do retorno financeiro determinará a viabilidade do investimento.
Um dos métodos mais utilizados para a sistematização da área no sistema pré-germinado, principalmente nas regiões da Depressão Central e Litoral Norte, é o chamado “Preparo na Água”, que consiste em utilizar a água como referência de nível. Inicialmente, após o preparo com grade niveladora ou enxada rotativa, o produtor deve colocar água em 1/3 da área e, então, remover a terra da parte alta, que não está submersa, para a parte baixa, até que a área toda apresente uma lâmina de água uniforme. Para a movimentação do solo na água, deve ser utilizada uma lâmina traseira ou uma prancha de madeira, denominada alisador. O produtor deve considerar, ainda,que muitas vezes, em função da condição de alta umidade, pode ser necessário equipar os tratores com sobrerodas ourodas gaiolas.

Preparo do solo
Existem várias maneiras de realizar o preparo do solo, dependendo da região, do tipo de solo, do tamanho da propriedade, dos implementos disponíveis e da infestação de plantas daninhas. Após a colheita, recomenda-se incorporar ou deitar os restos de cultura com rolo compactador, a fim de facilitar a decomposição da palha. Após o período de decomposição, é aconselhável manter o solo seco, para permitir a sua aeração e estimular a germinação das sementes de plantas daninhas.
No Rio Grande do Sul, está se estabelecendo um sistema próprio de preparo do solo, que é formado pelas seguintes operações:
a) uma ou duas gradagens destorroadoras em solo
seco, tendo-se o cuidado de não pulverizar demais o solo, para evitar a má distribuição das sementes visto que, os torrões impedem o arraste das sementes pelo vento; c) aplainamento e entaipamento em solo seco; inundação da área com uma lâmina de, no máximo, 8 cm. Este método é aplicável para sistematização em “cota zero”, permitindo a economia de investimentos em máquinas e na manutenção destas, podendo ser executado sob condição de umidade do solo em capacidade de campo. Este preparo do solo proporciona maior rentabilidade e qualidade ambiental sem comprometimento na obtenção de alta produtividade. Neste manejo, após o período de 20 a 30 dias de lâmina de água (10 cm), realiza-se a semeadura não retirando a água, ou seja, a lâmina de água (7,0 cm) é mantida até próximo a colheita, apenas repondo-a quando necessária.

Literatura recomendada
EBERHARDT, D. S. Consumo de água em lavoura de arroz irrigado sob diversos métodos de preparo do solo. In: ENCONTRO ESTADUAL DO SISTEMA PRÉ-GERMINADO EM ARROZ IRRIGADO, 1., Pelotas, 1995. Resumos… Pelotas: EMBRAPA-CPACT, 1995. p. 46-51.
EPAGRI. Sistema de produção de arroz irrigado em Santa Catarina: pré-germinado. Florianópolis, 1998. 79 p. (Epagri. Sistemas de produção, 32).
GOMES, A. da S.; PAULETTO, E. A. (Ed.). Manejo do solo e da água em áreas de várzea. Pelotas: Embrapa Clima Temperado, 1999. 201 p.
GOMES, A. da S.; PETRINI, J. A.; VERNETTI JÚNIOR, F. de J. Sistema de cultivo de arroz em várzeas na Região Sul. In: REUNIÃO NACIONAL DE PESQUISA DE ARROZ, 6., 1998, Goiânia. Perspectivas para a cultura do arroz nos ecossistemas de várzeas e terras altas: painel, conferências e mesas-redondas. Goiânia: EMBRAPA-CNPAF. 1998. p. 30.
GRUPO arroz pré-germinado. In: CURSO SOBRE MANEJO DO SISTEMA DE CULTIVO DO ARROZ PRÉ-GERMINADO, 3., 1999, Cachoeirinha. Manejo do sistema de cultivo do arroz pré-germinado. Pelotas: Embrapa Clima Temperado, 1999. 25 p.
PARFITT, J. M. B.; SILVA, C. A. S. da; PETRINI, J. A. Sistematização de solos de várzea. In: GOMES, A. da S.; PAULLETTO, E. (Ed.). Manejo do solo e da água em áreas de várzea. Pelotas: Embrapa Clima Temperado, 1999. p. 37-60.
PAULETTO, E.; GOMES, A. da S.; SOUSA, R. O.; PETRINI, J. A. Manejo de solos de várzea. In: GOMES, A. da S.; PAULLETTO, E. (Ed.). Manejo do solo e da água em áreas de várzea. Pelotas: Embrapa Clima Temperado, 1999. p. 61-87.
PETRINI, J. A.; FRANCO, D. F.; GOMES, A. da S.; SMIDERLE, O. J. Viabilidade de sementes de arroz vermelho (Oryza sativa L.) em função da submersão do solo em água e da profundidade de localização da semente. In: REUNIÃO DA CULTURA DO ARROZ IRRIGADO, 21., 1995, Porto Alegre. Anais... Porto Alegre: IRGA, 1995. p. 299-231.
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