Embrapa Clima Temperado
Sistemas de Produção, 17
ISSN 1806-9207 Versão Eletrônica
Dez./2011
Cultivo de arroz irrigado orgânico no Rio Grande do Sul
Autores

Sumário

Apresentação
Importância Econômica

Implantação da lavoura no sistema pré-germinado
Adubação e correção
Cultivares, população de plantas e época de semeadura
Manejo da Água de Irrigação
Manejo de plantas daninhas
Manejo de Insetos e Outros Fitófagos
Manejo de doenças
Meio Ambiente
Colheita
Pós-Colheita e Industrialização de Arroz
Econômia e mercado
Certificação de arroz orgânico

Expediente

CAPÍTULO 4 - Cultivares, População de Plantas e Época de Semeadura

Introdução

Como regra, as práticas de manejo da lavoura de arroz irrigado, observando-se as condições peculiares de cada ambiente, tais como solo e clima característicos de cada região de cultivo, são as mesmas adotadas para o sistema de produção tradicional e orgânico.

A produção orgânica de arroz irrigado está baseada na eliminação do uso de insumos químicos sintéticos, como fertilizantes, agrotóxicos, reguladores de crescimento entre outros. Neste sistema de produção são privilegiadas tecnologias alternativas como de mecanização, preparo do solo, adubação e controle de pragas, incluindo plantas daninhas, doenças e insetos.

Algumas estratégias para o sucesso da orizicultura orgânica consistem na utilização de métodos e práticas recomendadas pela pesquisa, de forma criteriosa, a fim de contribuir para mitigar ou eliminar fatores bióticos ou abíóticos que restringem a expressão do potencial de produtividade das lavouras ou que possam levar à necessidade de interferência com insumos sintéticos para garantir a produção.

Assim, entre outras práticas que devem ser observadas pelos agricultores “orgânicos”, atenção especial deve ser dada à escolha de cultivares, à época de semeadura e ao arranjo das plantas na lavoura; as quais estão afeitas ao conhecimento e à capacidade de planejamento para a utilização dos insumos naturais como solo, água e radiação solar; e independem da adição de insumos sintéticos externos.

Neste capítulo, abordam-se os principais aspectos relacionados às cultivares, população de plantas e época de semeadura para a produção orgânica de arroz irrigado, fundamentando-se no disposto na IN nº 64 do MAPA, Art. 91., que destaca que os sistemas orgânicos de produção vegetal devem priorizar a utilização de material de propagação originário de espécies vegetais adaptadas às condições edafoclimáticas locais e tolerantes a pragas e doenças.

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Cultivares

O uso racional, de cultivares melhoradas, além de ser uma tecnologia de fácil adoção e de baixo custo proporciona ao produtor retorno econômico em curto espaço de tempo e pressupõe  a exploração maximizada do potencial genético destas,  através da obtenção de rendimentos de grãos elevados, alto rendimento de grãos inteiros; boas características de cocção; grãos de boa apresentação, de melhor sabor e mais nutritivos; associado à minimização de custos,  economia  de insumos e, atendendo requisitos ecológicos, seguindo a tendência internacional pela preservação ambiental.

Em termos agronômicos, no sistema de cultivo orgânico os agricultores são incentivados a utilizar cultivares adaptadas às condições edafoclimáticas regionais, que apresentem bom vigor, para garantir a competitividade inicial com plantas daninhas e o perfeito estabelecimento da cultura, além de possuírem bom nível de tolerância aos estresses abióticos como o frio, ferro e salinidade e bióticos com pragas (insetos, fungos e outros).

Uma cultivar de arroz irrigado para o sistema de produção orgânico, além de eliminar o uso de insumos químicos sintéticos, deve apresentar produtividade compatível com os custos de produção da lavoura, estabilidade de produção, qualidade de grão adequada,  especialmente no que diz respeito  a cocção, cor, forma, sabor e aroma. O destino pode ser o grande mercado nacional, atrelado ao grão longo fino, ou para nichos de mercados internos de tipos especiais de grãos como o japônico, aromático ou italiano, os quais uma vez certificados podem, também, atingir mercados externos com elevado valor de comercialização.

A relação das cultivares de arroz registradas no Brasil pode ser obtida junto ao site www.agricultura.gov.r/snpc , do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.

No Rio Grande do Sul existem cerca de quarenta cultivares de arroz irrigado registradas para o cultivo (SOCIEDADE SUL-BRASILEIRA DE ARROZ IRRIGADO, 2007). Em um primeiro momento, com exceção das cultivares vinculadas ao sistema “Clearfield”, todas as demais podem ser utilizadas para a produção de arroz orgânico.  Contudo, algumas destas cultivares apresentam características peculiares que lhes credenciam para o sistema de produção orgânico. São elas:

BRS Atalanta – cultivar de ciclo superprecoce, cerca de 100 dias da emergência à maturação completa dos grãos, de elevado potencial produtivo, é uma ferramenta importante no manejo racional da cultura por permitir uma economia de até 20 a 30 dias de irrigação em relação à cultivares de ciclo precoce ou médio, respectivamente. Apresenta melhor reação quanto a resistência à bicheira-da-raíz entre todas as cultivares indicadas para o cultivo no Rio Grande do Sul. Isto é atribuído à presença em seu genoma de alelos originados da cultivar DAWN, que conferem resistência do tipo antibiose, impedindo o crescimento populacional da praga na lavoura. É, ainda, moderadamente resistente à brusone. Sendo assim, há uma redução na necessidade de uso de inseticidas e fungicidas para o controle de pragas e por conseqüência, a BRS Atalanta contribui para mitigar a contaminação dos solos e da água.

BRS Querência – cultivar de ciclo precoce, ao redor de 110 dias, da emergência das plântulas à maturação completa dos grãos, é constituída por plantas do tipo “moderno-americano”, de folhas e grãos lisos com boa tolerância a doenças. Apresenta alta capacidade de perfilhamento, colmos fortes e destaca-se pela panícula longa com grande número de espiguetas férteis. Seus grãos são longo-finos (“agulhinha”), com elevado  rendimento industrial, altamente translúcidos  e de boa qualidade culinária.  Sob o ponto de vista de cultivo no sistema orgânico, além de possibilitar uma economia de até 20 dias no período de irrigação em relação à cultivares de ciclo médio, a BRS Querência apresenta ótimo vigor inicial o que lhe confere excelente capacidade competitiva com as plantas daninhas no início do desenvolvimento da lavoura. Destaca-se, ainda, por apresentar ótimos níveis de produtividade com menor exigência na fertilização, notadamente em relação ao nitrogênio.

BRS-7 Taim – cultivar de ciclo médio, ao redor de 130 dias, apresenta elevado potencial produtivo. Possui genes da cultivar Te-tep, que lhe conferem boa resistência às raças de brusone predominantes no Rio Grande do Sul. Destaca-se, também, pela rusticidade, vigor inicial e alta capacidade de perfilhamento. No sistema orgânico, devido a esta última característica pode ser indicada para cultivo em cova (“Saraquá”) em áreas pequenas.

BRS Fronteira – cultivar de ciclo médio, ao redor de 135 dias, apresenta boa resistência ao acamamento e às doenças predominantes nas lavouras do Rio Grande do Sul, principalmente à brusone, o que permite, no sistema de produção orgânica, eliminar a aplicação de fungicidas. À semelhança da “Taim”, apresenta ótima capacidade de perfilhamento.

BRS Bojuru – cultivar de ciclo médio, ao redor de 135 dias,  primeira cultivar de arroz irrigado de grão curto, da subespécie japônica, desenvolvida pela pesquisa da Embrapa, no sul do Brasil. A sua liberação visa atender, de imediato, o mercado formado pelos consumidores orientais e descendentes que vivem no Brasil. A médio e longo prazo, destina-se a suprir, em parte, uma possível demanda do mercado mundial por este tipo de grão, especialmente dos povos do extremo oriente, como chineses, japoneses e coreanos. Para consumo, o grão desta cultivar, tem como característica principal o baixo conteúdo de amilose, o que dá o caráter pegajoso, molhado ou empapado dos grãos, quando cozidos – condição fundamental para as rexigências do consumidor de origem oriental.

IAS 12-9 Formosa – possui ciclo ao redor de 135 dias, da emergência à completa maturação, pertence, como a “Bojuru”, ao grupo de grão tipo japônico. Possui tolerância às baixas temperaturas do ar, que ocorrem principalmente na zona sul do RS, durante o período reprodutivo das plantas. Os grãos curtos e vítreos, com casca pilosa, de cor clara-ouro e sem aristas. As plantas têm  altura média de 105 cm e, por isso, são sensíveis ao acamamento, quando cultivadas em solo com alta fertilidade.

Segundo Uphof (2003), embora as cultivares comerciais apresentem as mais altas produtividades no sistema de produção orgânico, aumentos de produtividade consideráveis também podem ser obtidos com variedades crioulas. Apesar de apresentar menor produtividade do que as variedades comerciais, o plantio das sementes crioulas tem se revelado lucrativo porque os consumidores estão dispostos a pagar um preço mais alto pelas variedades tradicionais por preferirem seu sabor, textura e aroma. No Rio Grande do Sul, existe um grande número de cultivares de grão curto chamadas, popularmente, arroz “cateto” ou “cachinho”. Há, ainda, cultivares de grão oblongo a longo como EEA 404 e EEA 406, que por suas propriedades organolépticas (sabor, textura e aroma) encontram mercado certo nos grandes centros populacionais do País. Estas cultivares são encontradas, principalmente, com pequenos produtores e podem ser resgatadas, caracterizadas, purificadas e multiplicadas para a seguir, retornarem à lavoura como opções para o sistema de produção de arroz orgânico.

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Arranjo de plantas

O arranjo de plantas adequado é, entre outros, um importante fator de manejo que pode contribuir para o aproveitamento do potencial produtivo das cultivares de arroz  em uso na lavoura  de arroz irrigado. Ao contrário, pode comprometer o desempenho da lavoura através da competição interespecífica com plantas daninhas, no caso de baixas populações ou, ainda, pela elevada competição intraespecífica, no caso de altas populações. O efeito do arranjo de plantas, ou seja, da população de plantas e da forma como esta se distribui na lavoura, tem sido estudado ao longo das últimas décadas. As respostas a esse fator variam conforme o grupo fenotípico das plantas em que as cultivares classificam-se, bem como com o sistema de cultivo e a qualidade da semente utilizada.

De modo geral, recomenda-se para o sistema de produção orgânica de arroz irrigado uma população de 150 a 200 plantas uniformemente distribuídas por metro quadrado. Para cultivares do tipo de planta intermediário ou mesmo moderno americano, com menor número de afilhos por planta, como IAS 12-9 Formosa e BRS Querência, recomenda-se o limíte superior deste intervalo. Por outro lado, cultivares do tipo moderno, que apresentam um maior número de afilhos por planta, como BR-IRGA 410, BRS-7 Taim, BRS Pelota, BRS Fronteira, IRGA 417 e IRGA 424, entre outras, permitem uma melhor distribuição e ocupação do solo, com menor número de plantas por unidade de área.

No caso do sistema de produção “orgânico”, em lavouras pequenas, de até dois hectares, a semeadura pode ser feita manualmente, utilizando equipamento tipo “saraquá’, para plantio em linhas, com doze covas por metro linear afastadas de vinte centímetros entre si e cerca de três sementes por cova, a fim de garantir uma população de sessenta plântulas por metro quadrado. Neste sistema recomenda-se a utilização de cultivares que emitam um número maior de perfilhos, como a cultivar BR-IRGA 410, BRs-7 Taim e BRS Fronteira, por exemplo.

Nos sistemas de semeadura convencional e cultivo mínimo, adaptados para lavouras maiores, acima de dois hectares, com semeadora mecânica, recomenda-se um espaçamento de vinte centímetros entre linhas e cinquenta sementes aptas, de boa qualidade, por metro linear, para garantir uma população de 200 a 250 plantas por metro quadrado, uniformemente distribuídas.

Em semeadura realizada em solo inundado, conhecida como sistema pré-germinado, a distribuição é feita mecânica ou manualmente, “à lanço”,  de maneira uniforme, com quinhentas sementes aptas por metro quadrado. Neste sistema ocorre uma distribuição aleatória das plantas na área e uma maior perda de sementes ou mesmo plântulas recém emergidas devido a diversos fatores, como má fixação da radícula ao solo e ataque de pássaros. Contudo, estas restrições são compensadas pela possibilidade de controle de invasoras por meio do manejo adequado da água de irrigação.

Os sistemas de semeadura e os arranjos de plantas acima citados apresentam como vantagens para a produção orgânica de arroz irrigado, além dos aspectos relacionados à competição com plantas daninhas ou mesmo intravarietal,  por luz e nutrientes, o controle cultural das invasoras com métodos mecânicos de erradicação de plantas indesejáveis.  Em adição permitem, ainda, que as plantas fiquem sujeitas à condições favoráveis para interceptação de radiação solar e circulação de ar no interior da lavoura, o que resulta em um ambiente desfavorável à proliferação de insetos-pragas e doenças, evitando ou minimizando a necessidade de tratamentos fitossanitários.

No planejamento da quantidade de semente a ser adquirida e utilizada na lavoura, o produtor deve considerar o peso de mil sementes (P1000S), o qual  é específico para cada cultivar e pode apresentar variação superior a 10% entre cultivares.

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Época de semeadura

A observação do período adequado para a semeadura é uma prática de manejo que exerce um papel de suma importância na obtenção de rendimentos mais elevados e estáveis e de um produto de qualidade superior sob o ponto de vista industrial e comercial. No Rio Grande do Sul, é recomendado que a semeadura seja realizada de acordo com o ciclo das cultivares, de modo que a diferenciação do primórdio ocorra até o dia 1° de janeiro ou o mais próximo possível da dessa data.

Para o sistema de produção orgânico de arroz recomenda-se que a semeadura obedeça fielmente as épocas definidas para cada região de cultivo, evitando-se semeaduras muito precoces ou tardias em que a cultura seja submetida à possíveis condições ambientais desfavoráveis.

Os períodos favoráveis para a semeadura de arroz irrigado podem ser encontrados nas publicações que resumem as recomendações técnicas para a cultura do arroz irrigado (SOCIEDADE SUL-BRASILEIRA DE ARROZ IRRIGADO, 2007). Como as informações podem conter alterações de ano para ano, recomenda-se aos produtores conferirem, antes do início de cada safra, as portarias sobre o Zoneamento Agrícola publicadas no Diário Oficial da União, que podem ser acessadas no endereço eletrônico http://www.agricultura.gov.br.

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Referências

SOCIEDADE SUL-BRASILEIRA DE ARROZ IRRIGADO. Arroz irrigado: recomendações técnicas da pesquisa para o Sul do Brasil. Pelotas, 2007. 154 p.

UPHOFF, N. O sistema de intensificação de arroz e suas implicações para agricultura. Agriculturas, Rio de Janeiro, v. 4, n. 1, p. 11-15, mar. 2007.

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Literatura recomendada

FAGUNDES, P. R. R.; MACHADO, M. O.; MAGALHÃES JUNIOR, A. M. de; TERRES, A. L.; LANNES, S. D.; SILVA, G. F. dos S. Efeito da densidade de semeadura e do espaçamento entre fileiras, sobre o rendimento de grãos de cinco genótipos de arroz irrigado (Oryza sativa L.), 1994/95. In: REUNIÃO ANUAL DO ARROZ IRRIGADO, 22., 1997, Balneário Camboriu. Anais… Itajaí: EPAGRI, 1997. p. 191-193.

SULLIVAN, P. Organic rice production. Butte: NCAT, 2003. Disponível em: <http://www.attra.ncat.org/attra-pub/rice.html>. Acesso em: 3 maio 2010.

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