Embrapa Clima Temperado
Sistemas de Produção, 17
ISSN 1806-9207 Versão Eletrônica
Dez./2011
Cultivo de arroz irrigado orgânico no Rio Grande do Sul
Giovani Thiesen
José Francisco da Silva Martins
Daniel Fernandez Franco
André Andres
Maria Laura Turino Mattos

Sumário

Apresentação
Importância Econômica
Implantação da lavoura no sistema pré-germinado
Adubação e correção
Cultivares, população de plantas e época de semeadura
Manejo da Água de Irrigação
Manejo de plantas daninhas
Manejo de Insetos e Outros Fitófagos
Manejo de doenças
Meio Ambiente
Colheita
Pós-Colheita e Industrialização de Arroz
Econômia e mercado
Certificação de arroz orgânico

Expediente

CAPÍTULO 6 - Manejo de Plantas Daninhas

Introdução

A infestação das lavouras por plantas daninhas constitui-se num dos principais problemas a ser enfrentado pelos produtores de arroz orgânico. Na produção convencional de arroz irrigado por inundação, devido à alta infestação de plantas daninhas em praticamente todas as áreas cultivadas com arroz no sul do Brasil, os herbicidas são um dos insumos mais frequentemente utilizados. No sistema orgânico, tendo em vista a não utilização do controle químico, outras táticas de manejo de plantas daninhas tomam importância, as quais, se utilizadas em conjunto, poderão contribuir significativamente para redução dos prejuízos e outras dificuldades associadas às plantas daninhas.

O conjunto de táticas utilizadas para minimizar o impacto das plantas daninhas pode ser dividido em dois grupos principais: as práticas de controle e as práticas de manejo. As práticas de controle são aquelas medidas utilizadas para eliminar diretamente as plantas daninhas, geralmente feitas após a emergência das invasoras no campo cultivado. Nesta categoria enquadra-se a aplicação de herbicidas, as roçadas, as capinas manuais e mecânicas, a retirada manual das plantas (conhecido como arranquio ou roguing), o consumo seletivo por animais e mesmo o fogo, em determinadas situações.

No cultivo de arroz orgânico, possivelmente a medida mais adotada para controle das plantas daninhas seja a capina manual ou mecânica seguida do arranquio manual de plantas. De execução bastante difícil para grandes áreas, por ser efetuado no curto período entre a semeadura e a entrada de água na lavoura, o controle mecânico limita-se a pequenas propriedades, em especial às lavouras com infestação baixa de plantas daninhas. O controle pelo fogo, por roçadas ou pelo consumo seletivo por animais é mais ajustado aos cultivos do tipo perene, ou culturas anuais, com espaçamento amplo entre linhas. Estas formas de controle são pouco adequadas ao arroz irrigado, que é cultivado em linhas ou a lanço.

A importância do manejo na redução de danos causados por plantas daninhas em arroz orgânico.

No cultivo orgânico, tão importante quanto o controle direto das plantas daninhas com capinas ou com o arranquio manual, é a adoção de medidas de manejo, as quais envolvem várias estratégias para aumentar a competitividade do arroz frente às invasoras, ao mesmo tempo em que se busca diminuir os fatores de agressividade das infestantes, como a densidade, a emergência antes da cultura e sua multiplicação. E neste sentido, podem-se adotar tanto práticas de manejo da cultura, quanto do sistema de produção na propriedade. Algumas medidas de manejo mais conhecidas e de possível adoção nas áreas cultivadas com arroz orgânico são as seguintes:

Medidas preventivas: visam evitar a entrada de plantas daninhas na lavoura e impedir a sua multiplicação e disseminação. Para isto, devem-se utilizar sementes de arroz de boa qualidade, isentas de plantas daninhas, e evitar, com capinas ou com arranquio manual, que as invasoras alcancem a fase reprodutiva e se multipliquem. Esta última medida é notadamente importante nos casos do aparecimento de novas espécies daninhas na lavoura. É necessário considerar que a principal forma de introdução de novas plantas daninhas nas áreas orizícolas é pela contaminação das sementes do próprio arroz – quando forem de baixa qualidade.

A utilização de cama de aviário, e principalmente de estercos e compostos orgânicos para fertilizar a área de arroz orgânico, também pode ser uma fonte de introdução de sementes de plantas daninhas. No caso de utilização destes produtos, deve-se observar que o material seja bem “curtido” ou fermentado o suficiente para que não se mantenham sementes viáveis de plantas daninhas no seu interior.

Durante a colheita do arroz, deve-se ter o cuidado de limpar as peneiras, saca-palhas e demais componentes da colhedora que possam armazenar partes de plantas e sementes de arroz e de plantas daninhas. Esta medida é geralmente empregada nas áreas de produção de sementes, e é válida especialmente para os casos em que uma mesma máquina é utilizada em várias áreas, situação comum em regiões com pequenas propriedades.

A entrada de sementes de plantas daninhas nos arrozais via água de irrigação também ocorre quando os canais condutores não são limpos periodicamente. A indicação, neste sentido, é que se mantenham canais e drenos livres de plantas daninhas. Deve-se evitar, pelo menos, que estas infestantes produzam sementes, com roçadas baixas, periódicas, no canal e nas suas bordas.

Manejo cultural: consiste em diversas medidas de manejo da cultura e da área cultivada, que visam reduzir a agressividade das infestantes, ao mesmo tempo em que buscam dar vantagem ao arroz na competição pelos recursos de crescimento, principalmente a luz, os nutrientes e até por espaço físico.

A primeira indicação de manejo cultural é a implantação adequada do arroz orgânico, para que cresca mais rápido do que as infestantes e para que não ocorram falhas na lavoura, que proporcionam espaço para o crescimento das plantas daninhas. Destacam-se neste sentido:

a) O uso de sementes de alta pureza e vigor, originárias de boas lavouras e armazenadas adequadamente, que originam plântulas de arroz de boa velocidade de crescimento – se comparadas às sementes de qualidade baixa. No cultivo orgânico é de fundamental importância o bom estabelecimento inicial da lavoura. E, neste sentido, a realização de testes de qualidades nos Laboratórios de Análise de Sementes não deve ser descartada. É por meio dos resultados destes testes que se ajusta a densidade de semeadura, pela percentagem de germinação do lote de sementes, obtendo-se, ao menos aproximada, uma idéia da velocidade inicial do crescimento do arroz, conhecendo o  vigor das sementes;

b) O ajuste na densidade de semeadura do arroz. No caso dos cultivos orgânicos, a impossibilidade de uso de herbicidas aponta que se deve priorizar para que a cultura ocupe rapidamente o máximo do espaço disponível na lavoura, dificultando o crescimento das infestantes. Isto é obtido quando se utiliza alta densidade de sementes, e sugere-se neste sentido que se utilize a maior quantidade recomendada para cada cultivar. A adoção desta tática alcança maior sucesso quanto se utilizam cultivares que mesmo sob alta densidade apresentam boa capacidade de perfilhamento.

c) A adição de nutrientes – pode ser obtida adicionando esterco ou produtos permitidos pela legislação, em quantidades mais próximas possíveis das indicadas pela análise de solo. Para isto, é necessário que se faça a análise, e se tenha a orientação de um engenheiro agrônomo ou técnico agrícola, que a interpretará e fará a indicação das quantidades necessárias dos fertilizantes.

d) O sistema de cultivo em solo inundado, com sementes pré-germinadas, é uma alternativa viável e possível de ser utilizada em áreas de produção orgânica. Em resumo, o sistema consiste em manter o solo inundado, anaeróbico (principalmente no início da primavera-verão), restringindo o oxigênio necessário à germinação das sementes de plantas daninhas, e semear o arroz com sementes que já iniciaram o processo de germinação. É uma tática muito eficiente para diminuir a infestação de arroz vermelho nas áreas, contudo, o uso contínuo pode favorecer ao aparecimento de gramas perenes. Exceto o uso de agrotóxicos, diversas das técnicas de manejo do arroz pré-germinado convencional podem ser utilizadas na produção orgânica. Para maiores detalhes sobre este método, sugere-se consultar as recomendações técnicas do arroz irrigado convencional (SOCIEDADE SUL-BRASILEIRA DE ARROZ IRRIGADO, 2007).

e) A manutenção de um sistema de irrigação com lâmina de água uniforme, que proporcione completa e permanente inundação dos quadros durante o ciclo da cultura, também pode diminuir a população das plantas daninhas, especialmente na fase inicial de desenvolvimento (SOCIEDADE SUL-BRASILEIRA DE ARROZ IRRIGADO, 2007).

f) Ajuste da época de semeadura do arroz. Talvez a medida mais impactante na redução da população de plantas daninhas nas lavouras de cultivo orgânico, consiste, em síntese, em efetuar a semeadura do arroz o mais próximo possível do período final da época indicada, logo após a eliminação das plantas daninhas com operações mecânicas na lavoura, como a gradagem. Especialmente eficaz para os anos de inverno “curto”, em que as plantas daninhas iniciam cedo sua emergência, há uma espera tática, planejada, até que ocorra a germinação do maior número possível de infestantes para então eliminá-las e semear o arroz de imediato. É importante, contudo, não semear o arroz após a data final da indicação, variável entre as regiões produtoras e o ciclo das cultivares. Alguns cultivares se adaptam melhor à semeadura mais tardia. Sugere-se consultar o detentor/produtor da cultivar, ou mesmo as indicações técnicas para o cultivo não orgânico de arroz, para obter estas informações (SOCIEDADE SUL-BRASILEIRA DE ARROZ IRRIGADO, 2007).

g) Antecipação do início e maior frequência das práticas de preparo do solo. O revolvimento do solo com aração e gradagem, além de facilitar a evaporação do excesso de água (importante nas terras baixas ou áreas muito planas), traz sementes para a superfície do solo, e expõe as mesmas à luz, maior variação na temperatura e oxigenação, fatores que provocam a superação na dormência das sementes e promovem a sua germinação. Uma indicação prática para o sul do Brasil, neste sentido, seria a realização antecipada de aração e gradagem (do meio ao final do inverno, por exemplo) e, aproximadamente quatro semanas depois, efetua-se nova gradagem (para eliminar as plantas daninhas emergidas e favorecer a germinação de novas sementes); no momento da semeadura, então, efetua mais uma gradagem para eliminar a “segunda” camada de infestantes.  Esta prática, combinada com a semeadura no final da época recomendada, é bastante eficaz em reduzir a infestação de plantas daninhas no arrozal.

h) Rotação de culturas e pousio estratégico das lavouras.  A repetição de uma única cultura por várias safras favorece a permanência de doenças no campo e o aparecimento de plantas daninhas adaptadas ao sistema predominante de cultivo. A forma eficaz de contornar estes problemas, especialmente na agricultura orgânica, é praticar a rotação de culturas. Após três ou quatro safras seguidas de arroz, deixa-se de cultivar este cereal na área, devendo a lavoura ser, de preferência, mantida drenada e cultivada  com uma espécie de sequeiro, ou, como segunda opção, mantida sob pousio. Após dois ou três anos, volta-se a cultivar o arroz irrigado. Em pequenas propriedades, geralmente a condição típica favorece à utilização do sorgo, que é, entre os cultivos de sequeiro, a espécie de maior adaptação às condições de seca e de encharcamento temporário do solo. Além disso, o sorgo pode ser utilizado para grãos ou pastoreio de bovinos de corte ou leite, e, ainda, é uma cultura de alta capacidade alelopática, efetivo na supressão de plantas daninhas.

i) Permanência de áreas em pousio, sem a implantação de culturas. É uma forma de rotação muito utilizada nos arrozais irrigados do Rio Grande do Sul. As áreas são, normalmente, drenadas e ocupadas com bovinos, que pastoreiam a vegetação remanescente baseada em azevém (no inverno) e em diversas gramíneas e outras espécies (no verão). A introdução de bovinos é benéfica às lavouras, por aspectos relacionados à fertilidade e estrutura dos solos e, notadamente, pela possibilidade dos mesmos reduzirem o banco de sementes de plantas daninhas, especialmente do capim arroz e do arroz vermelho. Neste sentido, quando se deixa estrategicamente de cultivar arroz em áreas muito infestadas com gramíneas, é de suma importância garantir que as infestantes não produzam sementes nos dois ou três anos em que o arroz não for cultivado. E isto se obtém, principalmente:

ao se ajustar a quantidade de animais – com alta lotação – para que consumam a maior parte da massa vegetal da pastagem (composta por capins, arroz vermelho e gramas perenes) reduzindo ao máximo sua produção de sementes e disseminação;

quando a pastagem for consumida até a fase de floração, para prevenir a queda de sementes ao solo, formadas nas plantas mais precoces;

ao utilizar-se a roçadora para eliminar as plantas que sobram do pastejo, especialmente se estas não atingiram a fase de reprodução;

a roçadora (ou também a utilização de alta carga animal na área, por um período curto de tempo) pode ser estrategicamente utilizada no início do verão, servido para uniformizar o crescimento da pastagem, impedindo que plantas que germinaram mais cedo produzam sementes.

Em áreas ou propriedades com ovinos, que reconhecidamente “rapam” com mais eficiência a pastagem do que os bovinos, torna-se interessante considerar que possivelmente estes animais serão mais efetivos para evitar a produção de sementes do capim arroz, do arroz vermelho, e a disseminação de gramas perenes infestantes do arroz. Os ovinos, neste contexto, além de apresentarem bom potencial para agregação de valor à propriedade, também podem ser utilizados para reduzir a infestação de plantas daninhas no arroz orgânico.

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Controle biológico

O uso de marrecos-de-pequim no período de entressafra do arroz – tecnologia utilizada a milhares de anos na produção de arroz chinesa – e da rizipiscicultura na safra e entressafra, são formas de controle biológico das plantas daninhas. As aves e os peixes alimentam-se de sementes de arroz-vermelho e de outras espécies daninhas existentes no solo, reduzindo significativamente a sua infestação. O controle biológico representa, além do manejo da cultura do arroz, uma alternativa de renda complementar para a propriedade. Segundo as Recomendações Técnicas de cultivo de arroz, o uso de marrecos e peixes no período de entressafra é mais adequado ao sistema de cultivo pré-germinado, devido  ao  alagamento do solo neste período facilitar a semeadura em lâmina de água (SOCIEDADE SUL-BRASILEIRA DE ARROZ IRRIGADO, 2007).

Marrecos-de-pequim na lavoura arrozeira: Produtores de arroz convencional e orgânico de Santa Catarina e da região central do Rio Grande do Sul têm utilizado marrecos-de-pequim em suas áreas arrozeiras, principalmente naquelas mais infestadas com arroz vermelho. Na área de validação tecnológica do projeto “Produção Orgânica de Arroz Irrigado”, subprojeto “Alternativas Tecnológicas para Produção Orgânica de Arroz Irrigado no Sistema de Cultivo Convencional, no Rio Grande do Sul”, em Camaquã, RS, a partir da safra 2003/2004 efetuou-se uma avaliação da eficiência das aves no manejo de áreas cultivadas com arroz.

Os marrecos, em número de 10, foram introduzidos na lavoura mantida com lâmina d’água, após a colheita da safra 2002/2003 em sistema de cultivo convencional, permanecendo até a drenagem da área para o próximo cultivo no sistema pré-germinado. Alimentando-se nesta área no período de outono, inverno e primavera, as aves efetuaram boa redução do banco de sementes de plantas daninhas, além do controle do caramujo. Nenhuma ave morreu no período e, mais importante, a produtividade do arroz na área alcançou 5.117 kg ha-1, enquanto que o sistema de cultivo convencional sem marrecos obteve 1.750 kg ha-1 de grãos.

No sistema convencional (não orgânico) a produtividade também foi baixa, alcançando 2.750 kg ha-1 de arroz. Possivelmente, além do controle de plantas daninhas, de alguns insetos e dos caramujos, as aves interferiram positivamente em aspectos relacionados à fertilidade do solo.

Como indicação geral, os marrecos com cerca de um mês de vida são colocados nas lavouras logo após a colheita do arroz, numa densidade a partir de 20 a 25 aves por hectare, e retirados antes da semeadura. Os quadros devem ser mantidos fechados, com lâmina d’água, e recolhidas a um abrigo (uma área cercada, com um pequeno açude) à noite, para evitar a ação de predadores.

Nas áreas com alta infestação de arroz vermelho, e para facilidade de manejo em áreas grandes, pode se utilizar uma elevada lotação (até 100 aves por hectare), procedendo-se este manejo diferenciado por quadro de lavoura por um período mais curto de tempo. As aves também podem ser utilizadas para controle de outras pragas do arroz, quando são colocadas cerca de 30 dias depois da semeadura, no início do perfilhamento (para evitar que prejudiquem plantas jovens do arroz), devendo ser retiradas na fase de formação dos grãos.

Rizipiscicultura: A consorciação do cultivo de arroz irrigado com a criação de peixes, atividade em expansão no Rio Grande do Sul, tem demonstrado ser uma opção rentável para o valor ao arroz produtor agregar orgânico. Benefícios proporcionados pelos peixes foram confirmados em experimentos conduzidos na Estação Terras Baixas,  da Embrapa Clima Temperado, em tanques (Figura 1) e em uma área de produção de arroz orgânico. Constatou-se que a criação de carpa capim e de carpa húngara proporciona bom aporte de material orgânico ao solo e reduz a densidade de plantas daninhas, devido ao consumo de sementes e de pequenas plântulas. Além disto, foi identificado que os jundiás podem reduzir a população de larvas do gorgulho-aquático, conhecidas por bicheira-da-raiz do arroz. Esta constatação confirma as observações de orizicultores do Banhado do Colégio (em Camaquã, RS), os quais informam que os jundiás consomem diversas pragas do arroz irrigado, principalmente os caramujos, causadores de danos severos na fase inicial da cultura. As áreas mais adaptadas à rizipiscicultura são aquelas com solos de alta capacidade de retenção de água, pouco arenosos e de difícil drenagem.

Figura 1. Tanque de consorciação do cultivo de arroz irrigado com a criação de peixes. Embrapa Clima Temperado, Pelotas, RS. 2009

Referência

SOCIEDADE SUL-BRASILEIRA DE ARROZ IRRIGADO. Arroz irrigado: recomendações técnicas para o Sul do Brasil. Pelotas, 2007. 154 p.

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