Embrapa Clima Temperado
Sistemas de Produção, 19
ISSN 1806-9207 Versão Eletrônica
Dez./2011
Produção de Batata no Rio Grande do Sul

Autores

Sumário

Apresentação
Introducao e Importância Econômica
Zoneamento do cultivo de batata
Escolha e preparo da área
Cultivares
Sementeiro e forçamento de brotação
Plantio e tratos culturais
Doenças
Pragas
Colheita classificação e armazenamento
Custo de Produçao
Referências
Leitura Recomendada

Expediente

Doenças

7.1 Causadas por bactérias

7.1.1 Murchadeira: causada por Ralstonia solanacearum Smith, é a principal doença bacteriana da batata e o maior problema para os produtores de batata-semente. Os principais sintomas são o murchamento e o secamento de uma ou de mais hastes, com posterior morte da planta (Figura 16). Os tubérculos infectados, ao serem cortados, exsudam pus bacteriano, uma excreção de coloração creme. Um teste simples para identificação do patógeno consiste em colocar em um copo transparente com água, um pedaço do tecido vascular de haste ou tubérculo – a ocorrência de exsudação confirma a presença da bactéria (Figura 17). O controle da murchadeira deve ser feito preventivamente, plantando-se batata-semente livre do patógeno, em áreas também livres. A água de irrigação não deve estar contaminada com a bactéria. A rotação com gramíneas (aveia, milho, sorgo, etc.), reduz a população do patógeno no solo. Como a bactéria sobrevive no sistema radicular de plantas daninhas, como maria-pretinha, picão-preto, entre outras, o controle ineficiente destas após a colheita da batata diminui bastante o efeito benéfico da rotação de culturas e a bactéria continua sobrevivendo na área, mesmo com a ausência da batata.

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Foto: Nilceu Ricetti Xavier de Nazareno

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Figura 16. Planta com sintomas de murcha bacteriana.

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Foto: Carlos Alberto Lopes
Figura 17. Teste do copo. Fluxo bacteriano exsudando de haste de batata com murcha bacteriana.

7.1.2 Canela -preta, talo-oco ou podridão-mole: é causada por um complexo de bactérias pectolíticas (Pectobacterium spp), que possuem um grande número de hospedeiros e estão amplamente disseminadas nos solos cultiváveis. Portanto é uma doença que ocorre frequentemente em lavouras de batata, sendo muito dependente das condições ambientais favoráveis (calor e umidade). O principal sintoma é o apodrecimento da haste, com característica coloração negra, geralmente iniciando pela base junto ao solo, e posterior murchamento e morte da planta (Figura 18). Os tubérculos infectados desenvolvem, em condições propícias, uma podridão mole característica, exalando um odor fétido e, quando colhidos úmidos e armazenados em más condições, podem sofrer grandes perdas no depósito. Para o controle devem-se usar sementes sadias, evitar o plantio em solos mal drenados (acabar com o “pé de arado”), fazer rotação de culturas com gramíneas, realizar a colheita em dias secos e armazenar a batata em locais bem ventilados. Evitar excesso de machucaduras nos tubérculos na colheita e transporte e usar sacaria nova e caixaria devidamente sanitizada com formol a 3%.

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Foto: Nilceu Ricetti Xavier de Nazareno

Figura 18. Planta de batata infectada por canela preta com a presença típica de apodrecimento de hastes com coloração preta.

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7.1.3 Sarna comum: causada por Streptomyces scabies (Thaxter) Waksman & Henrici, também é altamente disseminada nos solos cultiváveis. Os sintomas são observados nos tubérculos e se manifestam através de lesões pequenas e superficiais, ou de reentrâncias profundas e suberificadas (Figura 19). A elevação do pH do solo, através da aplicação de calcário, bem como a ocorrência de períodos secos durante o ciclo da cultura, especialmente no estádio de tuberização, favorecem a ocorrência. Cultivares mais suscetíveis devem ser plantadas em solos com pH baixo (~5) e, também, devem receber irrigação em períodos de seca, principalmente no período de tuberização e crescimento dos tubérculos.

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Foto: Arione da Silva Pereira
Figura 19. Tubérculos de batata com sintomas de ataque de sarna comum.
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7.2 Causadas por fungos

7.2.1. Requeima ou preteadeira: causada por Phytophthora infestans (Mont.) de Bary, é a principal doença fúngica da batata. Em condições de temperatura amena e muita umidade, pode destruir completamente uma lavoura em poucos dias. Os sintomas consistem em lesões pardas escuras nas folhas (Figura 20), de tamanho e forma irregulares, que progridem para os pecíolos e hastes, podendo atingir, inclusive, os tubérculos. O patógeno pode ser visto na parte inferior das folhas, na forma de um mofo cinza esbranquiçado. No Brasil, sobrevive somente em tubérculos e em plantas vivas (soqueira), uma vez que ainda não foi relatada ocorrência de estruturas de resistência (oósporos) capazes de sobreviver no solo, na ausência do hospedeiro em fase vegetativa. Para o controle da doença, além do uso de cultivares resistentes (Figura 21), eliminação de plantas voluntárias em outras lavouras e amontoados de descartes e tubérculos-semente sadios, devem-se iniciar aplicações com fungicidas quando as plantas atingirem 10 cm a 15 cm de altura e sempre que as condições climáticas favorecerem o desenvolvimento do patógeno. A calda bordalesa, bem como os produtos à base de oxicloreto de cobre, maneb, mancozeb, chlorothalonil, captan, dimetomorfe, cimoxanil ou metalaxil (Tabela 9) são eficientes no controle da doença. Os três últimos são sistêmicos e, Cimoxanil ou Metalaxil apresentam a vantagem de ter efeito curativo quando aplicados até dois dias após o início da infecção, mas devem ser utilizados esporadicamente, em épocas altamente favoráveis à doença. Sempre que possível deve-se alternar os produtos utilizados. Lembrar que os produtos de contato têm efeitos estritamente preventivos e não têm eficiência depois que o fungo já entrou nos tecidos das plantas. Vale ressaltar dois aspectos quanto ao controle químico: mesmo usando produtos chamados sistêmicos, utilizar volume de calda que permita cobertura máxima das plantas, e nunca empregar subdosagens sob pretexto de economia.

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Foto: Arione da Silva Pereira

Figura 20. Lesão de requeima em folíolo de batata, com a presença conspícua do crescimento esbranquiçado do agente causador.

 

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Foto: Arione da Silva Pereira
Figura 21. Clones de batata com diferentes graus de severidade de requeima: a) resistente; b) moderadamente resistente; c) suscetível.

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7.2.2 Pinta Preta ou Alternaria: causada por Alternaria solani Sor. e A.grandis Simmons, é uma doença que ocorre, geralmente, em plantas adultas (maduras), iniciando as infecções pelas folhas mais velhas (inferiores). As lesões começam com pequenas pontuações, que se desenvolvem em manchas zoneadas, necróticas, concêntricas, com margens limitadas pelas nervuras (Figura 22). A doença é favorecida por clima quente e úmido. Em ataques intensos as lesões podem coalescer, secando a folha completamente. Os tubérculos raramente são infectados, mas quando isso acontece apresentam lesões deprimidas e necróticas.  Para o controle, além de cultivares resistentes e da rotação de culturas, deve-se aplicar preventivamente fungicidas à base de Chlorothalonil, Iprodione e Mancozeb (Tabela 9). Nos casos em que o controle com esses fungicidas não for eficiente, deve-se aplicar Tebuconazole ou Difenoconazole.

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Foto: Nilceu Ricetti Xavier de Nazareno


Figura 22. Planta de batata altamente atacada por pinta-preta, evidenciando as lesões típicas com anéis concêntricos e coloração marrom-oliváceo.
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7.2.3 Podridão seca: causada por Fusarium spp., é uma doença importante em tubérculos armazenados. A infecção ocorre através de ferimentos nos tubérculos e no local de inserção do estolão. Os sintomas são evidenciados por áreas escuras, com presença de mofo de cor branca, rosa ou violeta (Figura 23). Com a evolução da doença, as áreas atacadas vão ressecando até o tubérculo se tornar totalmente mumificado. Para o controle, recomenda-se colher em dias secos, evitar ferimentos nos tubérculos e manter a ventilação nos depósitos. Os tubérculos-semente podem ser tratados com thiabendazole por meio de pulverização, antes de serem encaminhados para o armazenamento.

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Foto: Nilceu Ricetti Xavier de Nazareno


Figura 23. Tubérculos de batata com típicos sintomas de podridão seca interna, podendo ser observado o crescimento de micélio do agente causador.

7.2.4 Rizoctoniose: causada por Rhizoctonia solani Kühn, é uma doença muito importante, embora nem sempre reconhecida. Os brotos podem ser mortos antes da emergência causando falhas na plantação, ou ocorre o desenvolvimento de mancha de cor marrom nas hastes (Figura 24), abaixo do solo, podendo a lesão interromper a circulação da seiva para os tubérculos e raízes, resultando em enrolamento das folhas, que pode ser confundido com o causado por infecção virótica, e formação de tubérculos aéreos. Os estolões também podem apresentar lesões ou serem mortos, e os tubérculos mostram manchas escuras, denominadas de “mancha de asfalto” ou “piche” (Figura 25), constituídas pelas estruturas do fungo (esclerócios). O desenvolvimento do fungo é favorecido por baixas temperaturas e alta umidade. Os escleródios presentes nos tubérculos-semente constituem a principal fonte de inóculo, mas o fungo pode persistir em alguns solos. Para o controle, recomenda-se rotação de culturas com gramíneas e utilização de tubérculo-semente livre da enfermidade e com brotação uniforme e vigorosa. Evitar o plantio muito fundo e em terrenos muito frios (temperatura do solo abaixo de 18 oC) para que os brotos tenham rápida emergência e escapem do ataque do fungo.

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Foto: Nilceu Ricetti Xavier de Nazareno

Figura 24. Hastes de batata com cancros de rizoctoniose na base e a presença de micélio de cor acastanhada por sobre as lesões.

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Foto: Nilceu Ricetti Xavier de Nazareno

Figura 25. Sintoma de crosta preta ou “piche” na epiderme de tubérculos de batata infestados pelo agente causador.
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7.3 Causadas por vírus

7.3.1 Enrolamento da Folha: causada pelo vírus do enrolamento da folha da batata (Potato leafroll virus - PLRV), é a principal virose da batata no Brasil. O principal sintoma é o enrolamento das margens dos lóbulos foliares para cima, no sentido da nervura principal (Figura 26). Além disso, ocorre, quase sempre, uma clorose generalizada da planta e uma acentuada redução do crescimento. Em algumas cultivares de batata as bordas das folhas apresentam uma coloração arroxeada. O efeito da infecção na redução da produtividade é variável segundo a cultivar. Na ‘Baronesa’, é superior a 70%, em relação aos tubérculos graúdos (mais de 55 mm de diâmetro) e de cerca de 50%, quando considerada a produção total comercializável. Essa doença se dissemina através dos tubérculos-semente infectados e dos pulgões. As fontes de inóculo (reservatórios de vírus) são constituídas pelas plantas infectadas de espécies cultivadas (batata, tomateiro etc.) ou silvestres (erva-moura, figueira-do-inferno etc.). O controle é feito através do plantio de tubérculos sadios, erradicação das plantas infectadas, combate aos pulgões, isolamento das lavouras e destruição de soqueiras (plantas espontâneas) de batata.

 

 

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Foto: Arione da Silva Pereira
Figura 26. Planta com enrolamento das folhas causado por vírus do enrolamento da folha da batata - PLRV.

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7.3.2 Mosaico: diversos vírus da batata podem causar o Mosaico. O mais comum e importante é o vírus Y da batata (Potato virus Y - PVY). Os sintomas variam com a estirpe do vírus, a cultivar de batata e o ecossistema em que a planta esta sendo cultivada (Figura 27). O sintoma do Mosaico pode ser classificado como leve ou severo, e consiste em áreas de coloração mais clara ou amarelada na folha, intercaladas com a coloração verde normal. O vírus, também, pode induzir nas folhas, rugosidade, encarquilhamento, necrose das nervuras e queda, além de clorose generalizada e redução do crescimento da planta. O controle é semelhante ao utilizado para o PLRV, diferindo em relação ao combate aos pulgões, que não funciona, por ser este um vírus de relação não persistente com os vetores.

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Foto: Arione da Silva Pereira
Figura 27. Planta de batata com mosaico causado por vírus do Y da batata – PVY.

Tabela 9. Alguns produtos utilizados no controle de doenças fúngicas da batata.

Nome Técnico

Modo de ação

Classe toxicológica1

Tolerância2 (mg/kg)

Intervalo de segurança3 (dias)

Captan

Preventivo

 I a III*

10,00

14

Clorotalonil

Preventivo

 I a III*

0,10

7

Cimoxanil

Preventivo/Curativo

 I a III*

0,10

7

Difenoconazole

Curativo

I

0,10

7

Dimetomorfe

Preventivo/Curativo

III

0,03

14

Iprodiona

Preventivo

IV

0,02

30

Mancozeb

Preventivo

III

0,01

7

Metalaxil

Preventivo/Curativo

III

0,05

7

Oxicloreto de cobre

Preventivo

IV

(4)

7

Tebuconazole

Curativo

III

0,10

30

Thiabendazole

Preventivo 5

III

5,00

(6)

Fonte: AGROFIT (BRASIL, 2011)
* variável com o produto comercial
1 I = extremamente tóxico; II = altamente tóxico; III = medianamente tóxico; IV = pouco tóxico.
2 Em tubérculos usados para consumo (limite máximo de resíduo- mg/kg do produto comercial)
3 Período entre a última aplicação e a colheita.
4 Informação não disponível na literatura consultada
5 Aplicação nos tubérculos-semente.
6 Não determinado devido ao modo de uso.

 

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7.4 Causadas por nematoides

7.4.1 Nematoide-das-galhas: Meloidogyne spp. causa os maiores prejuízos na cultura da batata nas condições brasileiras. Este pequeno verme (<1,00 mm) parasita as raízes das plantas causando galhas (pequenos engrossamentos) e provocando danos conhecidos como “verrugas” ou “pipocas”, que podem atingir até 100% dos tubérculos, inutilizando-os para a comercialização (Figura 28). No Brasil, as espécies que mais ocorrem são M. incognita, M. javanica e M. arenaria, e, em menor frequência, M. hapla. Dentre as cultivares disponíveis no mercado nacional, praticamente não existem materiais com resistência genética às espécies mais frequentes. Assim, a principal medida de controle constitui-se no plantio de tubérculos sadios (livre de nematoides) em áreas não infestadas.
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Foto: César Bauer Gomes
Figura 28. Tubérculos de batata com pipoca causada por Meloidogyne spp.
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7.4.2 Nematoide-das-lesões: Pratylenchus penetrans é considerada a espécie mais importante do nematoide-das-lesões no Brasil por ter uma ampla gama de espécies vegetais hospedeiros e causar danos na cultura. No entanto, outras espécies como P. brachyurus, P. coffeae e P. zeae também atacam batatas, sendo os dois primeiros os mais frequentes. Plantas de batata severamente atacadas por Pratylenchus spp. podem exibir necroses nas raízes, além de manchas circulares castanho-púrpuro de forma irregular nos tubérculos infectados (Figura 29), os quais podem se tornar impróprios para comercialização e suscetível a podridões causadas por fungos e bactérias. Entretanto quando as manchas são pequenas, os sintomas podem ser confundidos com as lenticelas (aberturas naturais). Assim como para o nematoide-das-galhas, o plantio de material sadio em área não infestada constitui-se na principal medida de controle. Quando já se sabe da ocorrência do nematoide-das-lesões e/ou do nematóide-das-galhas, no local de plantio, é importante saber quais espécies estão presentes na área, para tomada de decisão quanto às medidas de manejo destas pragas. O emprego de espécies vegetais não hospedeiras do nematoide, em esquemas de rotação de culturas, constitui-se em uma das medidas de controle mais efetivas e economicamente viáveis. No entanto, pode-se utilizar o controle químico destas pragas, especialmente quando as áreas estão pesadamente infestadas. Embora a aplicação destes produtos seja efetiva na supressão dos patógenos, estes produtos são altamente tóxicos ao homem e ao meio ambiente.

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Foto: César Bauer Gomes
Figura 29. Tubérculos de batata com nematoide causado por Pratylenchus spp.
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